HISTÓRIA DA MÚSICA

O movimento musical que uniu a guitarra à música brasileira

Tropicália

Tropicália

A inquietação de Caetano Veloso em relação aos novos rumos que a música brasileira vinha tomando em meados dos anos 60's foi um potente motor para o surgimento do movimento tropicalista. O artista idealizava uma música nova e aberta a experimentações, que misturasse as raízes nacionais com as novas tendências internacionais, dentre as quais o psicodelismo e o pop-rock, que no Brasil ganhou forma através do chamado "iê-iê-iê" da Jovem Guarda.

 

Capa de disco tropicalista de Caetano Veloso

 

O tropicalismo portanto nasce por iniciativa de Gilberto Gil e Caetano Veloso, que aos poucos foram ganhando outros artistas para o movimento. Gil traz para o movimento sua influência da música regionalista e folclórica brasileira, a influência do novo ritmo da Bossa Nova, também admirado por Caetano. Para ambos a figura de João Gilberto e sua famosa “batida” no violão seria fundamental para a modernização da música popular brasileira.

Naquela época haviam tendências nacionalistas que defendiam com todas as forças a pureza da música nacional. Esse grupo, personificado nos centros Populares de Cultura da UNE, se opuseram veementemente aos tropicalistas. O novo movimento de Gil e Caetano contrapunha-se à estética do CPC. Para Gil e Caetano, a música brasileira era suficientemente rica para absorver e ressignificar as influências externas.  Fica evidente a influência do movimento iniciado por Oswald de Andrade, na semana de arte moderna de 1922, conhecido como Antropofagia. Para os modernistas antropofágicos, a "nova cultura brasileira" deveria ser fruto de uma deglutição da cultura internacional e uma mistura com a cultura nacional que originaria uma mistura muito mais rica.

O movimento tropicalista preocupou-se em não criar uma estrutura estética fechada, de modo que não cerceasse a liberdade criativa de seus membros. Um termo que ganhou destaque foi o termo "cafona", que consistia em compilar elementos díspares dentro de um mesmo movimento, de modo que se tornasse algo beirando o grotesco pelo completo abandono dos padrões clássicos de bom e mau gosto.

Com a influência do kitsch , tomando como ícones Chacrinha e Vicente Celestino, o movimento foi arduamente criticado como simples arte de massas que buscava popularmente apenas um meio de ganhar dinheiro. A resposta de Gil e Caetano foi classificar seu movimento como Pop (termo derivado de popular, porém diferente da estética pop de Andy Warhol , que constituiu o movimento da pop-art ), pois buscava uma comunicação clara com o público, assim como busca a propaganda um entendimento da população.

O nome Tropicália veio como que por acaso, enquanto Caetano apresentava algumas canções de seu novo disco, já praticamente pronto na época, para o cineasta Luiz Carlos Barreto. Ao ouvir uma das músicas fascinou-se pela composição de Caetano, Até então sem título. Luiz afirmou que a música muito o recordava o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, bem como a exposição “Tropicália” de Hélio Oiticica (um penetrável do artista, onde este apresentava um conflito entre rural e tecnológico), que foi sugerida como título à música.

 

Inicialmente Caetano refutou à proposta, porém o produtor do disco adorou a idéia que foi imediatamente adotada. Vale ressaltar que tanto Glauber (sobretudo por meio do cinema novo) como Oiticica seriam importantes acompanhantes da ideologia tropicalista, com quem muito se identificariam. Também convém falar da participação de Júlio Medaglia e Rogério Duprat, importantes compositores eruditos que muito viriam a acrescentar às composições tropicalistas, com arranjos elaborados e recursos novos à música popular.

Trabalho de Hélio Oiticica

Na composição Domingo no Parque , apresentada no III Festival da MPB da TV Record (onde Caetano também apresentou sua composição Alegria, Alegria, um marco do movimento tropicalista), a participação de Duprat se mostrou importantíssima, a partir do momento em que inseriu na música recursos como ruído, berimbaus e chocalhos que garantiram uma nova dinâmica à música, até então um recurso novo, que viria a ser repetido em várias composições tropicalistas, como “Questão de Ordem” de Gil (acompanhada do grupo “os Bichos”, que no contexto da nova estética usava de ruídos de animais e guinchos em conjunto com a voz do compositor; não obstante a apresentação não foi compreendida pelo júri, cuja análise fixava-se no arranjo letra e música o que acabou levando à sua desclassificação do III FIC, em que “É proibido Proibir” acabou nas finais).

Sobre esta última, convêm que se faça um breve comentário sobre a repercussão da música: Caetano, após tomar conhecimento dos movimentos de vanguarda européias que se organizaram na França revolucionária de 1968, resolveu compor uma música baseada nos ideais por esses pregados.

O produto final não agradou ao próprio autor, que acabou escolhendo a composição a fim de criticar a estrutura arcaica dos Festivais da Canção. Ao entrar no palco vestido com uma roupa de plástico e colares chamativos acompanhado da banda Os Mutantes, com suas guitarras elétricas (instrumento mal-visto pelos nacionalistas e esquerdistas da época), o músico já começa a ser vaiado. Quando começa a cantar, a reação da platéia ouvinte é rápida e violenta: arremessam todo o tipo de objetos no palco como protesto.

 

Caetano ainda tenta cantar, porém acaba se enfurecendo com a multidão (composta em massa por estudantes universitários “engajados” na luta política da época) e pronuncia um inflamado discurso, enquanto Os Mutantes viram-se de costas para a platéia e continuam a execução da melodia. Gil que entra no palco para auxiliar Caetano acaba sendo alvo de um objeto arremessado pela multidão enraivecida.

 

Caetano no Festival defendendo Alegria, Alegria

 

Assim como é inerente à grande parte dos movimentos modernistas, também pode-se dizer que a Tropicália apresentou seu “manifesto” com o LP Panis et Circensis . São claras as influências externas neste disco, desde sua capa, que muito lembra a performance da capa de Sgt . Pepper’s , LP dos Beatles lançado em 67. A ausência de intervalo entre as faixas também é um traço incorporado do disco da banda inglesa. Vê-se na capa, ao fundo, a presença da guitarra elétrica em contraste com a palmeira tropical, um traço típico do movimento.

 

 

 

Capa de Sargent Peppers dos Beatles

 

A Tropicália foi um movimento consideravelmente curto, de modo que com a deflagração do Ato Institucional nº5, quando toda e qualquer liberdade civil foi vetada e a arte foi diretamente submetida à censura, Gil e Caetano não se enquadraram nas novas regras e foram presos e posteriormente exilados, sob a acusação de desrespeito aos símbolos nacionais do hino e da bandeira, durante uma apresentação na boate Sucata, na Zona Sul carioca, quando entremearam trechos do hino nacional em suas composições, fizeram coreografias deitados no chão e exibiram um estandarte de Oiticica com o face do bandido Cara de Cavalo e a inscrição “Seja marginal, seja herói”.

Referências bibliográficas:

NAVES, Santuza Cambraia; Da Bossa Nova à Tropicália, 2ª Ed., Rio de Janeiro, 2004, Editora Descobrindo o Brasil

PAIANO, Enor ; Tropicalismo: bananas ao vento no coração do Brasil, São Paulo, Scipione , São Paulo, 1996

VASCONCELLO, Gilberto; Música Popular: de olho na fresta, Rio de Janeiro, Edições do Graal, 1977

 

Site:  http://tropicalia.uol.com.br/

PARA SABER MAIS

site

O mais completo site sobre a história da Tropicália.

Verbete no Wikipedia

Sua Pesquisa - Tropicalismo

Informações sobre o movimento no site Sua Pesquisa

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PARA VER E OUVIR

Tropicália - Caetano Veloso
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Domingo no parque

Gilberto Gil e Os Mutantes defendendo sua canção no III Festival da Canção em 1967

Alegria, Alegria

Caetano Veloso em 1967 defendendo com os Beat Boys sua canção no III Festival da Canção

Tropicália - A voz de uma geração

Este documentário foi desenvolvido no segundo semestre do curso de Comunicação Social com habilitação em Rádio, TV e Internet da FAPCOM - Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, para a matéria de Elementos da Linguagem Musical. O vídeo não está completo devido as diretrizes de direitos autorais do YouTube.

Arquivo Record conta a história da tropicália

Programa da TV Record sobre o movimento tropicalista

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Domingo no Parque - Gilberto Gil e Os Mutantes
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Panis et Circences - Os Mutantes
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É proibido proibir - Caetano Veloso
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Geléia geral - Gilberto Gil e Torquato Neto
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